Uma linguagem de Análise

Num influente artigo de 1970 George Akerlof (economista que mais tarde será laureado com o Prémio Nobel na Economia) abre novos horizontes para a interpretação da realidade sob o jugo da ciência económica.

Nesse artigo intitulado The Market for "Lemons": Quality Uncertainty and the Market Mechanism investiga sobre relações entre qualidade e informação e quais as suas implicações no funcionamento dos mercados. Akerlof procura demonstrar que a existência de diferentes qualidades de bens, associado à falta de informação dos compradores no mercado podem levar a uma diminuição de qualidade ou mesmo extinção deste. Para concretizar a suas ideias Akerlof usa como exemplo o mercado de carros usados nos Estados Unidos. Como os compradores nesse mercado desconhecem a verdadeira qualidade dos automóveis (que para os vendedores a qualidade é sempre óptima), vão valorizá-los por um valor médio, ou seja, os automóveis de boa qualidade serão subvalorizados e os de má qualidade sobrevalorizados. Obviamente que os vendedores de boa mercadoria tenderão a afastar-se deste mercado, já que os compradores apenas acreditam que aquilo que compram é de qualidade média, enquanto os vendedores com má mercadoria tenderão a ser atraídos para este mercado. Previsivelmente este mercado ficará inundado de má mercadoria, ou limões na gíria norte-americana, provocando uma contínua depressão desse mercado.

A ciência económica designa este processo por
selecção adversa, em que as características menos desejáveis são seleccionadas e não descartadas dados os incentivos envolvidos. São nesses incentivos que os economistas muitas vezes se preocupam. No exemplo do mercado de automóveis usados, a utilização de uma intervenção que obrigue a um garantia prolongada pode mitigar o problema da selecção adversa (os economistas nem sempre são a favor do livre funcionamento do mercado).

O que se pretende frisar é a linguagem utilizada para compreender este fenómeno. Afastando-se de interpretações para o propósito específico (
ad hoc), do género, “o mercado dos carros usados não funciona porque as pessoas não têm princípios” ou “na política são os maus que subsistem porque os bons não se interessam”, a ciência económica acrescenta uma justificação dos factos com base na racionalidade dos seus agentes e dos incentivos criados pelas instituições.

Com a mesma linguagem em que Akerlof analisa o mercado dos carros usados nos EUA, outros economistas analisam mercados como mercados de câmbios, acesso ao crédito em países subdesenvolvidos, mercados de seguros e até no blogging. No panorama doméstico o actual Presidente da República Aníbal Cavaco Silva usa essa mesma linguagem para comentar a actualidade política nacional em 2004 no seu famoso artigo Os políticos e a lei de Gresham.

É nesta longa tradição que este blog nasce. Toda e qualquer opinião que se emanará deste espaço terá um fundamento lógico e dedutivo. O instrumento utilizado será a linguagem económica. O público-alvo será aquele que se interessar. Espera-se reciprocidade para que este espaço ganhe estatuto de fórum de ideias.

Boas leituras e até um próximo artigo!

1 comentários:

  1. Anónimo disse...

    É relevante sabermos que, na sua opinião, a instituição onde faz o mestrado é de grande reputação (o que quer que isso seja)?  


 

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